A cidade indiferente

A vida urbana, disseram alguns filósofos dos nossos tempos, acaba criando um certo cinismo naqueles que têm por sina vivê-la, crescer com ela, e, enfim, suportá-la. De fato: não fosse a capacidade quase sobre-humana de nós paulistanos, de nascença ou de escolha, em relevar a explosão de britadeiras, a inércia nervosa do trânsito e a ausência folgada do governo, bateríamos de longe qualquer um desses recordes escandinavos em suicídios por cem mil habitantes. Constatamos mais de dez vezes por dia, no trabalho ou na padaria, em casa ou na psicanálise, a completa e absoluta inviabilidade nervosa de se continuar vivendo nessa cidade… e mesmo assim não a largamos. Junto com a conta do analista, desenvolvemos jeitos práticos de ignorar o que se passa.
            De todos, não conheço nenhum melhor do que a indiferença. Ao que a gente não se acostuma nessa vida? Contra o barulho num domingo, compramos um fone; contra o trânsito, vamos de táxi; contra a doença, associamo-nos à Unimed; contra a poluição, compramos um sítio. Dispensável dizer que mor das vezes uma indiferença dessas custa dinheiro, ainda que em certos casos ela até ajude a economizar. Rejeitando esmolas, por exemplo, ou simplesmente fazendo com que nossos nervos, cada vez mais rígidos e inflexíveis, consigam ignorar toda e qualquer calamidade que se passe à nossa volta, prosseguindo na atividade mecânica a que chamamos trabalho, vida amorosa, “nossos sonhos”, etc.
            A indiferença da cidade grande dá ao cidadão a capacidade extraordinária de atravessar hecatombes, catástrofes e cataclismos de maneira completa e absolutamente impassível. Daí que em São Paulo seja coisa imprescindível. Porque se tratando de uma cidade que desmorona diariamente, na festiva ideologia do progresso, e que parece estar prestes a desabar de vez a cada fim de tarde, aquele que não puder atravessar desertos e mares, arrastões e enchentes, operações urbanas e demolições massivas, com boa vontade e sorriso no rosto, estará condenado a uma vida miserável, de constatação cotidiana do erro e de impotência frustrante, diante de uma ordem de coisas tão absurda quanto onipotente.
            Quem jogava sinuca no Big Small, e passou recentemente por aquele trecho da Artur entre a Fradique e a Virgílio, percebeu que já não restam nem tapumes. Assim como quem almoçava no Farias, bem na esquina. Ou então quem jantava no China Town, no trecho da Mourato entre a Teodoro e a Artur: já pode ver o prédio que sobe em seu sétimo ou oitavo andar. Quem for sentido Clínicas pelo viaduto sobre a Joaquim Antunes também verá, à sua direita, uma obra em etapa avançada, ao que, cruzando a Cônego, se somará uma outra já completa, onde ficava a Relojoaria Rido. Se insistir pela Teodoro, repare à esquerda no prédio mais alto: ainda não está completo, mas beira seus trinta andares, quiçá até com heliporto, para a amargura daqueles que insistem na rima pobre “especulação – popularização”. E ainda em matéria de rima, na esquina deste mesmo prédio, na rua Francisco Leitão, peço a atenção para três imóveis meio mortos, onde ficava o Doc Sex – lá, segundo o Diário Oficial, será mais uma torre de trinta andares. Como talvez seja a da esquina da Teodoro Sampaio com a João Moura, onde jazem as ruínas e árvores do antigo casarão, covardemente demolido na calada da noite, contrariando uma ordem de tombamento. Também tombados, mas em outro sentido, foram os casarões da rua Arruda Alvim, mais para cima da Teodoro, até a Sílvio Sacramento, onde o observador que me acompanha poderá seguir até a Cardeal, dobrar à esquerda e encontrar, perto da esquina com a Capote Valente, mais um prédio galgando os ares. Já na esquina com a Alves Guimarães as obras estão atrasadas, ainda estão demolindo um prédio de cinco andares para poder subir um de cinquenta; enquanto o da esquina da João Moura já está em seu sexto ou sétimo andar, assim como sob o Viaduto Sumaré uma torre comercial já está completa, diante de um enorme terreno demolido, onde construirão outra enormidade. Descendo mais, após o breve intervalo do Stella Maris e do Cemitério São Paulo (já que a lei ainda não permite que se construa em cemitérios), se encontrarão enormes demolições na Lisboa, na Virgílio, na Mourato, na Simão, o anúncio de um novo empreendimento perto da Fradique, sem contar mais dois na Cunha Gago, três na Pedroso, outros dois na Artur, e…
            Enfim. Quem se interessar, contabilize os de que porventura me esqueci, e faça as contas. Não devem ser difíceis: são números simples, ao contrário, certamente, dos quilômetros quadrados por faturas bilionárias com as quais as pobres empreiteiras, incorporadoras, construtoras e demolidoras têm de lidar, diariamente, após seis anos de governo Kassab. Sem contar os agrados indispensáveis aos funcionários públicos solícitos, ovos de páscoa aos vereadores ciosos do bem comum, compensações de danos causados por tão infelizes quanto irreversíveis acasos, gastos com advogados talentosos e de consciência cívica comparável à de Rui Barbosa, e mais outras inúmeras despesas feitas invariavelmente para o bem geral, seja o da cidade, seja o das famílias dos envolvidos nestes saudáveis empreendimentos, visando unicamente à melhoria do bolso impune, quero dizer, da coisa pública.
            Coisas, dirão, absolutamente normais, ou que pelo menos se tornaram normais, nos últimos anos. Tão normais quanto um burocrata de nome Aref ganhar não-sei-quantos milhões em poucos anos de serviço, por facilitar a expedição de alvarás a edifícios que excediam os termos da lei. Ou a Câmara aprovar, sem grandes dores de cabeça, mudanças absurdas na lei de zoneamento, facilitando ainda mais novos empreendimentos. Ou o lugar em que crescemos, trabalhamos e vivemos, de um mês para o outro, se tornar um calamitoso canteiro de obras, que para além de destruir a nossa casa, indireta ou, muitas vezes, diretamente, descarrega vigas de aço às duas da manhã, trabalha com britadeiras aos domingos, atrai mais de 300 novos carros a uma rua onde mal cabem trinta e transforma nosso espaço num lugar irreconhecível, mostruosamente autônomo e absurdo, onde tudo o que é, amanhã ou depois, pode deixar de ser, e onde o que conhecíamos já não passa de um fantasma, perambulando sem rumo entre uma multidão de mil anônimos.
            É o progresso, alguns dirão. E o progresso não é para quem tem nervos fracos: é para os empreendedores, para aqueles com senso de oportunidade; não para quem tem princípios, ideais ou vínculos de qualquer tipo. É preciso ser desapegado. É preciso ser indiferente. E o paulistano agraciado com a bênção da indiferença, como sói aos mortos-vivos, não há de reparar em nada disso: comporá pacificamente, na instituição do trabalho e na organização da família, outro botão deste mecanismo autófago e produtivo. Mas os infelizes que ainda não demoliram sua humanidade; aqueles amaldiçoados com a Vergonha e a Preocupação; aqueles que tiveram o azar de amar São Paulo de alguma maneira; estes bem que têm o direito, ou mesmo a obrigação de se incomodarem, e incomodarem toda a cidade, de raiva ou vingança. Nem que seja, como disse o poeta Torquato, numa obstinada tentativa de “desafinar o coro dos contentes”.
            Onde, melhor, leia-se: desafinar o coro dos indiferentes.

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Hoje!

Hoje!

Convite para uma conversa com João Sette Whitaker

Sobre João Sette Whitaker Ferreira:

Doutor em Arquitetura e Urbanismo (USP). Formado em Economia pela PUC, Mestre em Ciência Política (USP). Prêmio de melhor tese de Doutorado pela Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional (ANPUR – 2005). Professor doutor nos cursos de graduação e pós-graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e professor doutor associado da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie-SP. Vice-coordenador da Área de Concentração Habitat do Programa de Pós-Graduação da FAUUSP. Coordenador e pesquisador sênior do Laboratório de Habitação e Assentamentos Humanos (LabHab) da FAUUSP e co-líder do Grupo de Pesquisa Projeto, Produção e Gestão da Habitação Social no Brasil, FAU Mackenzie. Professor visitante 2011-2012 no Institut de Hautes Études de l´Amérique Latine – IHEAL, Université de Paris 3 – Sorbonne Nouvelle. Consultor na área de Arquitetura e Urbanismo, atuando principalmente nos temas: políticas habitacionais, habitação social, desenvolvimento urbano, instrumentos urbanísticos e estatuto da cidade, economia urbana e mercado imobiliário, globalização e cidades-globais. Autor do livro “O mito da cidade-global: o papel da idelogia na produção do espaço urbano” (Vozes – 2007).

As paredes caem, uma a uma, em Pinheiros

Quando cheguei a esta rua, João Moura, havia em frente do meu prédio uma vilazinha e nela uma fonte de água cristalina. Dizia-me seu Chico, com seus 80 anos, que a fonte existia desde que ele chegara, na altura dos anos 1930. E que muita gente ia buscar água fresca para encher talhas, potes e moringas.

 Chico, meu vizinho, tinha um quintal que ia até quase a Rua Cristiano Viana. Nele coexistiam jabuticabeiras, bananeiras, pássaros, patos, galinhas. As jabuticabas, imensas, eram docíssimas.

Cada vez que o pé carregava e os galhos pretejavam de frutos, Chico me trazia uma vasilha cheia. Havia um tanto de interior, um tanto de bucolismo, outro de quietude, comunidade.

Chico se foi, mas sua casa, seu terreno ainda estão ali e cada um de nós prende a respiração, no temor de que vendam algum dia e tudo vá para o chão.

O galo garnizé que a vizinhança ouve habita esse terreno. Vez ou outra, acontece uma baladinha noturna, com violão e danças, há pessoas guardando a casa. Um citadino dia desses começou a espicaçar a galinha que tinha acabado de ter pintinhos.

Provocava e provocava a pobre ave que tentava proteger os filhotes e investia com o bico. Então, um dos convidados gritou:

– Pare com isso, por favor! Não perturbe! Não vê que a galinha ainda está amamentando?

Quando cheguei à rua, anos 90, do meu apartamento no 13.º andar minha vista alcançava o horizonte e eu podia ver as luzes do Morumbi, em noites de jogo. Ao fazer uma panorâmica, contemplava o verde por toda a parte.

Abaixo de mim podia contemplar os sobrados tão característicos de Pinheiros e Vila Madalena, cada um com seu quintal, suas árvores. Podia ver laranjeiras. Mangueiras e jabuticabeiras, flores.

Assim vinha sendo nossa vidinha com jeito provinciano, aqui em Pinheiros, dentro de São Paulo. Basta atravessar uma rua e estamos nos Jardins. Mas em geral ficamos no que chamamos o outro lado da Rebouças, o nosso.

Tão bom que as casas de decoração estão ocupando espaços, são várias e dá gosto olhar as vitrines. Uma delas, a do Teo, inclusive, reformou uma área imensa em frente da nova churrascaria Bovinu’s, que, após quase um ano, abriu suas portas.

Nessa onda, na Rua Artur de Azevedo, a filha do Viana mudou o rumo dos negócios que eram do pai (materiais de construção) e agora o espaço se chama Vianarte, com objetos coloridos.

Jovens saem do cursinho e da faculdade (tudo aqui na rua) e lotam o bar do Pinguim e o novo boteco Leyseca na esquina da Artur de Azevedo. Há um tom alegre nos fins de tarde, ruidoso, agitado. Na CPL motoqueiros fazem point aos sábados.

Aqui temos nossos bares, nossos restaurantinhos, o Genova, o Buttina, o bistrô Vianna, o Wolf, nossos self-services, a padaria, o sapateiro, a quitanda, a farmácia, o supermercadinho, a acupuntura.

Os prédios existentes conviviam em harmonia com os sobrados, as lojas, com tudo, todos se ajeitando, se acomodando, amigavelmente. Uns prédios maiores, outros pequenos, de quatro, cinco andares.

Então, começaram a chegar. Ah, começaram! Em frente de casa subiram duas torres enormes, minha vista se foi, a fontezinha desapareceu no concreto. Sim, um dia reapareceu dentro da garagem de nosso prédio. Quem segura água?

A vilinha que havia desapareceu. Foi o primeiro aviso. O segundo foi na Rua Artur de Azevedo, quando um grupo de casinhas foi abaixo, entre elas a original videolocadora S’Different, um barzinho de happy hour e duas ou três residências.

As “bombas” caíam cada vez mais perto. Então, a notícia se espalhou: tudo viria abaixo na esquina da João Moura com a Teodoro Sampaio. Até a belíssima casa branca que ficava no alto de uma colina.

Histórica? Não sabíamos. Mas era linda, de uma São Paulo senhorial, elegante. Todos tremeram quando a proprietária, velhinha, morreu. Dali saiu seu funeral por determinação expressa. Ficamos todos na corda bamba.

Súbito, na calada da noite, porque eles não têm coragem, fazem na calada da noite, a casa desapareceu. Foi ao chão, como se tivesse passado um tsunami. A arte de demolir num instante tem seu auge em São Paulo.

A morte da casa branca da colina verde doeu em todos nós. Ali, dizem, vai ser um shopping. Na Artur, um grande complexo. A culpa é de quem, gente? Das construtoras? Não, elas querem construir. A culpa é de leis que cedem ante o poder do dinheiro sem medir consequências para a comunidade, o trânsito, a rede de águas e esgotos, e tudo que está implicado.

E as árvores do jardim? Vão para o chão? (Aliás, ali na esquina da Brasil com a Colômbia, a Kia não derrubou a imensa árvore, frondosa, para construir uma concessionária?) E como fazer, se ao lado da ex-casa branca da João Moura há um posto de gasolina? Terreno contaminado. Não existe um prazo de alguns anos para limpar tudo? Vão cumprir? Vão nada.

Junto da escola, outro edifício está subindo. Sobem, sobem, vão subir, e o bairro vai sendo desfigurado. Aliás, toda esta cidade foi, está sendo e será. Não existem planos diretores, nem políticos que se interessem por esta pobre São Paulo.

Assinei, vou participar, estou com o Movimento Contra a Verticalização. Não somos contra o progresso, somos contra as injúrias, a agressão à qualidade de nossas vidas, a entrega de tudo à especulação.

Vivi quase 20 anos nesta comunidade, faço parte dela, nos conhecemos todos, temos nossos hábitos e idiossincrasias, alegrias. Agora, temos medo, muito medo de que talvez tenhamos de procurar outro lugar para viver.

Eros Grau, que foi ministro do Supremo, é poeta, romancista, com expressiva bibliografia jurídica e membro da Academia Paulista de Letras, em seu mais recente livro, Paris, Quartier Saint-Germain, ao testemunhar a ação do “modernismo” que vem devastando edifícios, livrarias, pontos tradicionais em Paris, indaga:

…E os seres humanos que davam vida a todas essas coisas? Onde está, para onde foi toda essa gente que integrava meu universo afetivo? Que diabo de método de produção social desagradável, sempre assumindo formas novas, engolindo o passado e os que faziam parte dele! Eles não percebem – os sujeitos da transformação econômica – que agridem bruscamente a nossa intimidade afetiva quando renovam o quartier e o mundo?

Ignácio de Loyola Brandão – O Estado de S.Paulo
20 de abril de 2012

Atenção: Nova decisão judicial quanto ao processo da Rua João Moura 740!

“Considerando os mandados já devolvidos, com as respectivas certidões e fotos, determino que seja intimada a Municipalidade de São Paulo, para que proceda a preservação e guarda do local, a fim de que não sobrevenha a demolição do que restou, sob pena de aplicação da multa diária fixada na r. decisão concessiva da liminar e, desta vez, a ser aplicada em dobro. Ato contínuo, proceda o Sr. Oficial de Justiça a constatação circunstanciada das áreas ainda preservadas do imóvel. Autorizo reforço policial, se o caso, de tudo certificando-se em mandado. O mandado haverá de ser cumprido com urgência.”

Juíza Simone Viegas de Moraes Leme
Processo 0011418-53.2012.8.26.0053 – Ação Civil Pública – Atos Administrativos – Associação Preserva São Paulo – Prefeitura do Municipio de São Paulo e outros – Vistos.

 

Abaixo-assinado pela criação do Parque Pinheiros

Solicitamos às autoridades a preservação do jardim do casarão recém-demolido da Rua João Moura 740. Contrariando decisão judicial que garantia sua preservação, esse casarão foi demolido clandestinamente na calada da noite. Porém, o jardim remanescente constitui um patrimônio paisagístico e ambiental da cidade: seu terreno, com mais de 2mil m², é uma das maiores e únicas áreas verdes do bairro, com diversas árvores antigas e de grande porte que abrigam inúmeras aves. Por esses e diversos outros motivos, pedimos vosso apoio para a criação do Parque Pinheiros, que será o primeiro do bairro. Mais qualidade de vida, menos especulação imobiliária! Por um futuro melhor para nós e nossos filhos.

Assine o Abaixo-Assinado neste link:http://www.abaixoassinado.org/abaixoassinados/9497

http://www.youtube.com/watch?v=mjD8mFIjkb0

Textos de Paulo Moreira Leite

Coluna da data do dia 4 de abril de 2012

http://colunas.revistaepoca.globo.com/paulomoreiraleite/2012/04/01/4182/

Coluna da data do dia 31 de março de 2012

http://colunas.revistaepoca.globo.com/paulomoreiraleite/2012/03/31/em-defesa-de-pinheiros/