Arquivo do mês: abril 2013

A cidade indiferente

A vida urbana, disseram alguns filósofos dos nossos tempos, acaba criando um certo cinismo naqueles que têm por sina vivê-la, crescer com ela, e, enfim, suportá-la. De fato: não fosse a capacidade quase sobre-humana de nós paulistanos, de nascença ou de escolha, em relevar a explosão de britadeiras, a inércia nervosa do trânsito e a ausência folgada do governo, bateríamos de longe qualquer um desses recordes escandinavos em suicídios por cem mil habitantes. Constatamos mais de dez vezes por dia, no trabalho ou na padaria, em casa ou na psicanálise, a completa e absoluta inviabilidade nervosa de se continuar vivendo nessa cidade… e mesmo assim não a largamos. Junto com a conta do analista, desenvolvemos jeitos práticos de ignorar o que se passa.
            De todos, não conheço nenhum melhor do que a indiferença. Ao que a gente não se acostuma nessa vida? Contra o barulho num domingo, compramos um fone; contra o trânsito, vamos de táxi; contra a doença, associamo-nos à Unimed; contra a poluição, compramos um sítio. Dispensável dizer que mor das vezes uma indiferença dessas custa dinheiro, ainda que em certos casos ela até ajude a economizar. Rejeitando esmolas, por exemplo, ou simplesmente fazendo com que nossos nervos, cada vez mais rígidos e inflexíveis, consigam ignorar toda e qualquer calamidade que se passe à nossa volta, prosseguindo na atividade mecânica a que chamamos trabalho, vida amorosa, “nossos sonhos”, etc.
            A indiferença da cidade grande dá ao cidadão a capacidade extraordinária de atravessar hecatombes, catástrofes e cataclismos de maneira completa e absolutamente impassível. Daí que em São Paulo seja coisa imprescindível. Porque se tratando de uma cidade que desmorona diariamente, na festiva ideologia do progresso, e que parece estar prestes a desabar de vez a cada fim de tarde, aquele que não puder atravessar desertos e mares, arrastões e enchentes, operações urbanas e demolições massivas, com boa vontade e sorriso no rosto, estará condenado a uma vida miserável, de constatação cotidiana do erro e de impotência frustrante, diante de uma ordem de coisas tão absurda quanto onipotente.
            Quem jogava sinuca no Big Small, e passou recentemente por aquele trecho da Artur entre a Fradique e a Virgílio, percebeu que já não restam nem tapumes. Assim como quem almoçava no Farias, bem na esquina. Ou então quem jantava no China Town, no trecho da Mourato entre a Teodoro e a Artur: já pode ver o prédio que sobe em seu sétimo ou oitavo andar. Quem for sentido Clínicas pelo viaduto sobre a Joaquim Antunes também verá, à sua direita, uma obra em etapa avançada, ao que, cruzando a Cônego, se somará uma outra já completa, onde ficava a Relojoaria Rido. Se insistir pela Teodoro, repare à esquerda no prédio mais alto: ainda não está completo, mas beira seus trinta andares, quiçá até com heliporto, para a amargura daqueles que insistem na rima pobre “especulação – popularização”. E ainda em matéria de rima, na esquina deste mesmo prédio, na rua Francisco Leitão, peço a atenção para três imóveis meio mortos, onde ficava o Doc Sex – lá, segundo o Diário Oficial, será mais uma torre de trinta andares. Como talvez seja a da esquina da Teodoro Sampaio com a João Moura, onde jazem as ruínas e árvores do antigo casarão, covardemente demolido na calada da noite, contrariando uma ordem de tombamento. Também tombados, mas em outro sentido, foram os casarões da rua Arruda Alvim, mais para cima da Teodoro, até a Sílvio Sacramento, onde o observador que me acompanha poderá seguir até a Cardeal, dobrar à esquerda e encontrar, perto da esquina com a Capote Valente, mais um prédio galgando os ares. Já na esquina com a Alves Guimarães as obras estão atrasadas, ainda estão demolindo um prédio de cinco andares para poder subir um de cinquenta; enquanto o da esquina da João Moura já está em seu sexto ou sétimo andar, assim como sob o Viaduto Sumaré uma torre comercial já está completa, diante de um enorme terreno demolido, onde construirão outra enormidade. Descendo mais, após o breve intervalo do Stella Maris e do Cemitério São Paulo (já que a lei ainda não permite que se construa em cemitérios), se encontrarão enormes demolições na Lisboa, na Virgílio, na Mourato, na Simão, o anúncio de um novo empreendimento perto da Fradique, sem contar mais dois na Cunha Gago, três na Pedroso, outros dois na Artur, e…
            Enfim. Quem se interessar, contabilize os de que porventura me esqueci, e faça as contas. Não devem ser difíceis: são números simples, ao contrário, certamente, dos quilômetros quadrados por faturas bilionárias com as quais as pobres empreiteiras, incorporadoras, construtoras e demolidoras têm de lidar, diariamente, após seis anos de governo Kassab. Sem contar os agrados indispensáveis aos funcionários públicos solícitos, ovos de páscoa aos vereadores ciosos do bem comum, compensações de danos causados por tão infelizes quanto irreversíveis acasos, gastos com advogados talentosos e de consciência cívica comparável à de Rui Barbosa, e mais outras inúmeras despesas feitas invariavelmente para o bem geral, seja o da cidade, seja o das famílias dos envolvidos nestes saudáveis empreendimentos, visando unicamente à melhoria do bolso impune, quero dizer, da coisa pública.
            Coisas, dirão, absolutamente normais, ou que pelo menos se tornaram normais, nos últimos anos. Tão normais quanto um burocrata de nome Aref ganhar não-sei-quantos milhões em poucos anos de serviço, por facilitar a expedição de alvarás a edifícios que excediam os termos da lei. Ou a Câmara aprovar, sem grandes dores de cabeça, mudanças absurdas na lei de zoneamento, facilitando ainda mais novos empreendimentos. Ou o lugar em que crescemos, trabalhamos e vivemos, de um mês para o outro, se tornar um calamitoso canteiro de obras, que para além de destruir a nossa casa, indireta ou, muitas vezes, diretamente, descarrega vigas de aço às duas da manhã, trabalha com britadeiras aos domingos, atrai mais de 300 novos carros a uma rua onde mal cabem trinta e transforma nosso espaço num lugar irreconhecível, mostruosamente autônomo e absurdo, onde tudo o que é, amanhã ou depois, pode deixar de ser, e onde o que conhecíamos já não passa de um fantasma, perambulando sem rumo entre uma multidão de mil anônimos.
            É o progresso, alguns dirão. E o progresso não é para quem tem nervos fracos: é para os empreendedores, para aqueles com senso de oportunidade; não para quem tem princípios, ideais ou vínculos de qualquer tipo. É preciso ser desapegado. É preciso ser indiferente. E o paulistano agraciado com a bênção da indiferença, como sói aos mortos-vivos, não há de reparar em nada disso: comporá pacificamente, na instituição do trabalho e na organização da família, outro botão deste mecanismo autófago e produtivo. Mas os infelizes que ainda não demoliram sua humanidade; aqueles amaldiçoados com a Vergonha e a Preocupação; aqueles que tiveram o azar de amar São Paulo de alguma maneira; estes bem que têm o direito, ou mesmo a obrigação de se incomodarem, e incomodarem toda a cidade, de raiva ou vingança. Nem que seja, como disse o poeta Torquato, numa obstinada tentativa de “desafinar o coro dos contentes”.
            Onde, melhor, leia-se: desafinar o coro dos indiferentes.

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